quinta-feira, 21 de maio de 2015

NINGUÉM MANDOU SER BONITA...


Enquanto isso, aquela mulher se exercitava numa dessas academias ao ar livre e era observada por um senhor de meia idade.

- O que é que foi? Nunca viu mulher?
- Já vi sim.  Mas você é maravilhosa.
- Sou bonita mas não sou pros seus olhos.
- Aí é que você se engana. Te olhar já é uma dádiva de Deus.
- Que mané Davida coisa nenhuma. Vai tirando o olho.
- Mas por que eu faria isso? A gente tem de admirar a beleza...
- Ah...não me venha com conversa fiada. Pra mim você não passa de um velho tarado.
- Aí você está me ofendendo.
- Ah pára...você é que está me ofendendo...pare de me olhar.
- Desculpe mas eu não consigo. Você é linda demais...
- Se não parar de me olhar eu vou chamar a polícia pra você.

COINCIDENTEMENTE UM POLICIAL PASSAVA POR PERTO 

- Seu guarda..por favor...
- O que está acontecendo aqui? Alguém está te importunando, moça?
- Esse velho só fica me encarando...falou que admira minha beleza, que sou linda demais, que sou formosa e fica aí babando...
- E o que você quer que eu faça?
- Uai...que dê um corretivo nele, quem sabe uns carinhos com o cassetete, quem sabe deixar os olhos dele roxos...
- Infelizmente, minha flor, olhar não é proibido. Sua beleza não pertence a você. A senhorita enfeita o mundo.
- Ah...querem saber? Eu vou embora. A gente não pode nem fazer um exercício em paz...
- Ninguém mandou ser bonita...

quinta-feira, 14 de maio de 2015

A gente somos inúteis...



Enquanto isso, naquela praça no centro de uma favela, um sujeito dormia no banquinho.

- Ei...meu amigo. Você não pode dormir aí não...
- Mas quem é você?
- Eu sou segurança aqui da Vila. A praça é pública. Não pode dormir ai...
- Mas meu amigo. Como é que eu vou fazer? Eu perdi tudo, emprego, família...não tenho ninguém.
- Tá certo. O senhor é apenas mais um. Vá para aquele galpão. Lá eles vão te ajudar.
- Mas que galpão é esse?
- É o local onde ficam os obsoletos. O que você faz?
- Eu sou jornalista. O jornal em que eu trabalhava fechou e eu só sei ser jornalista.
- Tá certo. Já é o oitavo que chega aqui essa semana. Vou acompanha-lo até o galpão.
- Mas me diga uma coisa. Que comunidade é essa?
- O nome é Vila saudade. Mas vou encaminhá-lo para o galpão. Lá você terá alimentação, um colchão para dormir e encaminhamento.
- Muito obrigado.
ELE CHEGOU, PREENCHEU UM CADASTRO, REUNIU-SE COM UMA ASSISTENTE SOCIAL E FOI DIRECIONADO PARA UM QUARTO, ONDE ESTAVAM MAIS 6 PESSOAS
- Olá, meu amigo. Seja bem vindo na saudade.
- Bem vindo? Vou ficar aqui por pouco tempo.
- Todos falam isso.
- Mas como assim? Quero dar a volta por cima.
- Pra que? Aqui a gente tem tudo. Tem gente que já está aqui a muitos anos.
- Tá certo. Então me diga quem é você e como chegou aqui?
- Meu nome é Ângelo.  Eu era tipógrafo.
- O que são tipógrafos?
- São aquelas pessoas que montam jornais peça por peça, letrinha por letrinha. Quando apareceram as gráficas modernas, acabou o nosso trabalho. Como não sabia fazer outra coisa, a comunidade me acolheu.
-E você?
- Meu nome é Sr Lúcio Caldas. Eu era comerciante de 10 000 telefones. Eu alugava e vendia. Fui um sujeito bem rico. De repente o mercado de telefones acabou, evaporou e eu perdi tudo que tinha.
- Sério? E você?
- Eu era vendedor de máquinas elétricas de escrever. Era um mercado excelente. Mas aí apareceram os computadores e fiquei com um estoque enorme, vindo a falir e a perder tudo nos anos sequentes.
- E você aí de Boina?
- Fui vendedor de enciclopédias BARSA. Não contava que um dia teríamos o google e outros recursos. Tenho dois containers cheios de BARSAs encalhadas. Ninguém quer nem como doação.
- E vocês?
- Eu sou ex calculista de obras. Mas depois que apareceu o Autocad, fiquei sem emprego.
- Sou ex bancário. Os caixas eletrônicos e a internet me substituíram.
- Eu tinha uma gráfica e só trabalhava com listas telefônicas. Quebrei há  5 anos e também estou aqui.
- Minha nossa senhora. Nós precisamos fazer alguma coisa...
- Mas fazer o que? Pra que ficarmos nos matando lá fora? Aqui nós temos comida, lugar pra tomar banho, roupa, televisão pra assistir e até internet?
- Mas isso não é viver...é vegetar...
- Que nada. Aqui é muito bom. Pra que ficar dando murro na ponta de faca?
- Mas a gente precisa ser útil.
- Mas quem falou que não somos úteis?
- Quem banca esse lugar?
- Uai. Tem uns empresários aí, uma ONG, tudo em troca de uma coisa muito simples.
- O que?
- Que votemos nos candidatos deles nas próximas eleições e participemos de algumas manifestações. Dizem que eles tem mais um monte de galpões como esse.
- Bem razoável. Nós não somos vagabundos. Somos descartados pelo sistema.
- E ainda ganhamos um cartão, o bolsa dignidade, que a gente vai renovando todo mês para comprarmos alguma coisa pra nós.
- Muito justo. Mas eu não pretendo continuar explorando ninguém. Quero ganhar o meu  dinheiro, fazer meu próprio destino
- Tá certo então. Mas o que você faz mesmo?
- Sou professor...
- kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

( Tá rindo aí também? De repente tem um lugar  pra você lá na vila.)

sexta-feira, 8 de maio de 2015

CONVERSA DE BARBEARIA


Enquanto isso, numa  barbearia

- E o Cruzeiro hein?
- Tá  mal...sabe quando você junta coisas que não dão liga? Alguns jogadores parece que esqueceram o futebol, como é o caso do Mayke e Marquinhos. Parece que Marcelo já deu o que tinha que dar.
- E o Atrético?
- Uai...capaz deles ganharem do Inter lá dentro. Eles costumam tirar coelhos da cartola. Disparam a rezar e tem funcionado...
- E a Dilma? Também bateu panela?
- Cê não tá doido. A minha muié comprou umas panelas novas e vive lustrando. Eu é que não vou desafiar a jararaca.
- E a sua jara...quer dizer, sua dona? Ela não bateu panela?
- Que nada. Ela bateu foi minha carteira. Só de salão esse mês foi 120 real.
- Eu posso entrar no assunto seus aí?
- Fique à vontade, Zé Inácio.
- Eu acho esse trem da batê panela um desrespeito. É mais uma perseguição ao PT.
- Mas o PT merece. É só corrupção e ladroagem.
- Até parece que vocês da direita não roubam. E não estão nem aí pro social.
- Social é sinônimo de dar boa vida a vagabundo.
- Aqui...vamos mudar de assunto que eu não quero discussão aqui na minha barbearia não. Isso sempre dá problema
- Mas Zé Barbeiro...se é questão de dar polêmica, vamos parar de discutir futebol também. Eu sou atleticano e esse papo de cruzeirense não me agrada.
- Ai, ai, ai. Se não pudermos conversar sobre política ou futebol na barbearia, danou-se.
- Gente, gente. Vamos ficar em paz. Que tal falarmos da Paulinha?
- Paulinha que você fala é aquela que corre na avenida toda tardinha ?
- Ela mesmo. Que perfeição! Ela coloca aquela roupinha de ginástica e faz suas corridas. Ela nem imagina o quanto é gostosa Põe o fone de ouvido e parece que o mundo some.
- E parece que tem um namoradinho né? Cara sortudo. Imagine ela peladinha...
- Pessoal. Vão me desculpar mas eu sou religioso. Se não mudarem essa conversa perniciosa eu serei obrigado a me retirar do recinto.
- Ele tem razão, pessoal. Vamos respeitar a menina. Ela é de família. Vamos conversar sobre alguma coisa mais interessante.
- Tá bom. Então deixa eu contar um babado forte pra vocês. Sabe o Liliu da Farmácia?
- Sei. Aquele que casou-se com a secretária 20 anos mais nova que ele?
- Ele mesmo. Vocês não imaginam o que aconteceu...
- Não me diga que pegaram ela com outro.
- Pior. Ela é que pegou ele com outro. Parece que o casamento acabou.
- Puxa vida. Mas vocês não conseguem conversar nada que preste?
- O sr sugere alguma coisa?
- Já sei...vamos contar piadas. Eu começo. Vou contar uma piada de viado.
- Ôpa, ôpa, ôpa. Pode ir parando por aí...
- Por que?
- Discriminação. Crime previsto na lei da Homofobia.
- Mas você é advogado?
- Sou promotor. Mas aqui nesse instante, sou apenas um cliente.
- Então vou contar uma piada de bêbado...
- Também não pode. Trata-se de uma condição social degradante em que o meliante não responde por si, portanto configurando ação de bullying social também passível de pena.
- Uai. Então não podemos conversar sobre nada?
- Não sou eu quem está dizendo, meu caro. É a lei. Se quer permanecer livre e portador dos seus direitos, não fabrique provas contra você...
- É meus amigos, convenhamos...
- O que foi, Zé Barbeiro?
- A censura está no meio de nós...

sexta-feira, 24 de abril de 2015

COMO SOFRE UMA PRINCESA...


Enquanto isso, num reino distante...

- Meu príncipe, você me ama mesmo?
- Princesa. Eu vivo por você. Eu respiro por você. Eu só penso em você.
- Meu príncipe. Você me ama?
- Você é meu tudo, Princesa, meu sol, meu mar.
- Mas eu quero que você diga que me ama...
- Pra que?
- Pra gravar aqui no meu celular, pra ficar ouvindo à noite. É tão difícil pra você dizer eu te amo?
- De jeito nenhum princesa. Você sabe que sou tarado por você. Essas suas ancas, esses seios voluptosos...
- Meu príncipe. Isso é outra coisa. Isso é sacanagem. Eu tô falando de amor.
- Pois é. Fazer amor...não tem nada melhor. 
- Ah...não adianta. Vocês homens não entendem...
- Nós não entendemos o que?
- Não entendem que a gente precisa ouvir o "eu te amo" por parte da pessoa amada pra gente se sentir segura. É pedir tanto assim?
- Ok...
- Então vai dizer? Espere que vou gravar. 
- Besteira sua...
- Como assim?
- Um príncipe se declarar não significa muita coisa. Já vi príncipe que se declara e dez minutos depois já estão chifrando as pobres princesas.
- Já vi que você não me ama...
- Que isso, Princesa. Eu faço qualquer coisa pra trans...quer dizer, pra beijar você. Você é minha rainha. 
- Faz qualquer coisa mesmo?
- Claro. Eu não vivo sem você...
- Então tá bom. Já que você está disposto a qualquer coisa para meter, quer dizer, pra me ter...venha se encontrar comigo essa noite no nosso castelo.
- Sério? Você estará sozinha lá?
- Sim. Sozinha e todinha pra você...
- Então eu vou lá. Pode contar com isso...
- Só tem um probleminha...
- Qual problema?
- Você vai ter de enfrentar o dragão da família. Meu pai vai jogar canastra com a minha mãe no castelo dos Alcântaras e solta o dragão pra tomar conta do castelo.
- Dr-agão? Mas ele é bravo?
- Depende. Ele sente o cheiro do sujeito. Se ele sentir que o sujeito me ama, ele deixa entrar sem problemas. Mas se for um príncipe tarado que só quer se aproveitar dessa princesa sexy, ele carboniza na hora.
- Eu não tenho medo de nada. Pode esperar que eu estarei no seu castelo as 8 horas.

À noite a princesa tomou seu banho, pegou aquele perfume guardado para as ocasiões especiais e preparou-se pra esperar o príncipe encantado. Ele por sua vez, até passou de carro perto do castelo. Mas quando olhou por cima do muro e viu o dragão mandando fogo pelas ventas entrou no carro e foi pro castelo do seu sensível amigo, o Príncipe Denner. 

A princesa ficou esperando, esperando, esperando, até que percebeu que seu príncipe se desencantara. Foi quando viu um sapo em seu jardim e teve uma ideia maluca. Chegou pertinho e pegou o danado no colo. Olhou praqueles olhos esgugalhados e tomou coragem: lascou um beijo na boca do sapo. Mas para seu desespero, ele não virou príncipe. Que nooojo! Como sofre uma princesa...







sexta-feira, 17 de abril de 2015

ADIAR EXAME DE VISTA É UMA FRIA


Ele já não enxergava direito, mas como não gostava de dar o braço a torcer, continuava levando a vida e fingindo que conseguia fazer tudo e que enxergava com perfeição. Dos jornais,só lia as manchetes. Digitava seu celular com grande dificuldade e as vezes enviava mensagens criptografadas, em línguas desconhecidas. Ele ia se enganando, até que dois fatos o fizeram perceber que não dava mais, que teria de dar um jeito nas vistas cansadas e embaçadas. A primeira coisa foi que começou a tropeçar e a derrubar objetos ( o celular já tava um caco) e já começava também a não reconhecer as pessoas. A segunda coisa foi a mais traumática. Ele jogava 5 números há 8 anos na loto e finalmente os números que ele marcava deram na cabeça, só que ele errou um quadradinho, marcou no lugar errado e perdeu 800 mil reais. Ele teve vontade de arrancar os olhos com as mãos, ficou deprimido e enfim resolveu tomar uma atitude: pegou o catálogo do plano de saúde, discou para o telefone do primeiro oculista que encontrou e marcou consulta. O consultório ficava num prédio que conhecia no centro da cidade. Ele conseguiu marcar a consulta, pegou o ônibus e chegou direitinho. Lá chegando, teria de se dirigir à sala 307. Ele chegou, pegou o elevador para o terceiro andar e foi olhando as plaquinhas das salas, até encontrar o número 307. Lá chegando, encontrou uma recepcionista que nem conseguiu saber se era feia ou bonita. 

- Boa tarde. Tenho uma consulta as 15:00 horas?
- Com o Dr, Armando né? Só um minutinho que ele já vai atendê-lo.

Ele ficou ali aguardando enquanto tentava ler os diplomas do Dr.Armando. Mas o trem tava feio. Ele precisava de óculos mesmo.

- Sr Jairo! O senhor poder entrar, por favor ( disse o Dr Armando).
- Obrigado.
- Eu tô vendo a ficha do senhor. Tem 52 anos né?
- Sim.
- Mas qual o problema do senhor?
- É no olho, Dr Armando. O senhor sabe como é né? Com o tempo dá problema
- Tá certo, sr Jairo. O senhor pode tirar a roupa e deitar naquela maca, por favor.
- Pois não.
- Enquanto isso vou preparando o seu exame.
- Tá certo, Dr. Armando. Eu demorei muito a vir né? Devia ter visto antes.
- Pois é. Mas por favor, deite de costas na maca.
- Tá certo. Mas Dr Armando...se eu tivesse vindo antes, teria evitado muitos problemas né?
- É verdade. Mas por favor. Fique quieto que não vai doer nada.
- Mas Peraí! Por que me mandou tirar a roupa? Esse exame tá muito estranho... que que é isso Dr?...Aaaaaaiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii. 
- Que isso. Calma. O senhor tem de ficar calmo.
- Mas que ficar calmo o que...eu vou consultar com um oculista e você vem com esse dedo comprido...
- Mas peraí...eu não sou oculista. Sou o Dr Armando. Proctologista.
- Eu sabia que tinha uma coisa errada. Maldita vista ruim.
- Mas pense pelo lado bom. Você fez um exame que todo homem tem de fazer mesmo.
- Pois é. Só que eu era virgem, né? O senhor devia ter perguntado.
- Uai...eu perguntei. Você falou que era no olho. Pensei que o senhor estivesse brincando e que seu problema fosse no olho do...
- Pode parar por aí...e não conte a ninguém que estive aqui, viu?
- Pode deixar. E se quiser indicação de um oculista, tem o Dr. Vitor...na sala 312.
- Tá certo. Eu vou dar uma chegadinha até lá. 
- Eu anotei aqui pra você aqui a sala, o telefone dele, tudinho...e em letras grandes pra não ter erro. 
- Bote aí também o seu número de telefone, whatsapp.
- Pra que?
- Vai que me dá uma saudade...

sexta-feira, 10 de abril de 2015

ENQUANTO ISSO NO CONFESSIONÁRIO...


- Padre, eu pequei.
- Você é humana minha filha, todos erramos.
- Mas Padre, eu fiz aquilo que não podia fazer.
- É o livre-arbítrio. Você pode até fazer, mas paga as consequências.
- Eu fiz o que não devia. Fiz amor com meu namorado.
- Você o ama?
- Sou apaixonada por ele.
- Paixão antecede o amor. Você só sabe se é amor quando a paixão acaba.
- Pois é. Eu avancei os limites. E agora? O que é que eu faço?
- Calma. Como isso foi acontecer?
- Ele estuda história. No começo estávamos só nos beijinhos. Mas ele me chamou pra ir na casa dele pra estudar história. Veja só a estória. Falou dos livros sagrados da Índia. Eu sempre gostei muito daquelas batas indianas e de incenso, sabe?
- Continue...
- Sabe o que ele queria estudar comigo?
- O que?
- O Kama-sutra.
- E você aprendeu?
- Sempre fui uma ótima aluna, né Padre.
- Mas por que está arrependida? Não foi bom?
- Aí é que tá, né Padre. Dizem que uma menina nunca deve fazer amor muito rápido com o rapaz, pois ele perde a motivação da caça e parte pra caçar outras meninas.
- Minha filha, o proveito é mútuo.
- Como assim, Padre?
- Ele se aproveitou de você, você se aproveitou dele. Se for amor, vai sobreviver. Se não for, vai queimar rápido como fogo de palha.
- Então...o que acha que devo fazer?
- Quer saber mesmo? Valorize-se. Vá num bom salão e dê uma caprichada nos cabelos, na maquiagem, tire umas fotos legais, saia pra rir com as amigas, dê uma focada nos estudos, fique com quem tiver vontade, siga a sua vida, do jeito que for. Mas não deixe ninguém te engaiolar. Seja dona de si.
- Mas Padre, então eu não pequei? Não vai me pedir pra rezar 3000 aves marias, um milhão de pais nossos?
- Minha filha, você peca contra você mesmo e não contra Deus. Paixão é assim. Te traz muito prazer e muita dor. Quer penitência maior?
- Puxa, Padre. Valeu viu ... (e ela saiu satisfeita e aliviada)

ALGUNS SEGUNDOS DEPOIS ALGUÉM ABRIU A PORTA DO CONFESSIONÁRIO E SEGUIU-SE UM DIÁLOGO.

- Olá, Seu Zé. Obrigado por tomar conta enquanto eu ia no banheiro.
- De nada, Padre João.
- Já tem meses que não aparece ninguém pra confessar. Ouvi vozes. Apareceu alguém?
- Teve uma menina sim, Padre João. Uma menina nova, mas era muito novinha, não tinha pecados, graças a Deus. Só essas bobagens mundanas, romances e ilusões da carne, essas coisas.
- Que bom.  Fico te devendo essa. Você é um santo, seu Zé.
- Sou nada , Padre João. Sou apenas jeitoso...

quinta-feira, 2 de abril de 2015

OS VAMPIROS ESTÃO ENTRE NÓS.

Os vampiros estão entre nós nas profissões mais inusitadas. Antigamente eram caçados pelos caça-vampiros, com seus colares de alhos, agua benta e fincos de prata. Mas depois de anos de perseguição, aprenderam a se adaptar e hoje vivem em sociedade sem despertar grandes suspeitas. A não ser por algumas práticas aceitas socialmente. Essa é a história de um desses anti-heróis ocultos, mas tão nas nossas caras que não vemos.

Enquanto isso, na redação daquele jornal...

- Pessoal, eu tava com a pauta da semana pra cobrir, mas pintou uma urgência aqui.
- O que foi chefe?
- Um rapaz acaba de ser assassinado num bairro da periferia. O corpo ainda está no chão e as pessoas estão passando pra olhar.
- É pra já, chefe. Vou pegar a moto e chego lá num instante. Onde aconteceu?
- No Bairro Cabana, perto da escola municipal
- Então vou correndo pra chegar antes da perícia. 
- Vai com cuidado, viu Ricardo. Não quero funcionário meu sendo preso por excesso de velocidade.
- Pode deixar, chefe. Sou um repórter responsável.

Ricardo saiu em disparada e misteriosamente chegou à cena do crime em 5 segundos. Lá chegando viu que as pessoas ficavam de longe observando o corpo. Chegou perto, analisou a cena do crime e tirou várias fotografias. O sangue pintava um quadro macabro no terreno e o corpo estava todo retorcido. Tratava-se de um rapaz que devia ter no máximo 18 anos. De repente a polícia chegou e um velho conhecido cumprimentou o repórter.

- Olá, Ricardo.
- Sargento Lemos. Como vai? Mais uma queima de arquivo?
- Não sabemos ainda. Vamos ter de examinar. Você não tem nenhuma informação?
- Ainda não tive tempo de conversar com ninguém. Acabei de chegar e tô aqui fotografando.
- Do jeito que você gosta né? Parece que você sente cheiro de sangue...
- Que isso, Sargento. Eu só dou sorte.
- E você chama isso de sorte?
- Uai. Essa é a minha profissão.
- Triste profissão, viu.
- E a sua? Olha que já segurei muita onda de alguns comandados seus.
- É verdade. Você é um bom parceiro. Mas vamos trabalhar. Chega de fotografias...
- Tá bom Sargento. Posso tirar umas dos policiais trabalhando?
- Melhor não. Ainda não sei quem é o defunto. Vai que é filho de alguém importante...
- Se for importante melhor ainda, pois vende mais jornais e meu emprego tá garantido. A profissão de repórter tá cada vez mais difícil. Muito desemprego.
- Ok. Mas acho melhor você sair da cena do crime. Temos ordens de agir rápido, pois a comunidade tá muito abalada. A perícia tá fazendo seu serviço e a ordem é limpar a área do crime o mais rápido possível.

NESSE INSTANTE CHEGOU UM POLICIAL COM UM RELATÓRIO.

- Sargento. Apuramos que o nome do rapaz é João. É de família de classe média, de pessoas de bem.  Teve uma passagem pela narcóticos. Tudo indica que pode ter sido eliminado por dívida com o tráfico. A família já está vindo.
- Obrigado, Gomes. Façam o serviço de vocês o mais rápido possível. Os pais devem ter contato com o filho morto em condições menos traumatizantes.
- Sargento. Permita-me uma opinião.
- Por favor, pode falar.
- Eles castigaram muito o rosto dele. A família não vai suportar ver. 
- Tem razão. Não é fácil. A assistente social já chegou?
- Positivo. Está conversando com alguns moradores.
- Cadê o Ricardo? 
- Sumiu, Sargento...

ENQUANTO ISSO, RICARDO JÁ ENVIAVA AS FOTOS PARA O JORNAL PELA INTERNET, ENQUANTO CORRIA COM SUA MOTO DIABÓLICA. Na cena do crime, conseguiu o que queria: algumas gotas de sangue com bastante adrenalina. 

No outro dia o jornal estava na banca com a foto do rapaz estirado na calçada , numa pose toda torta, com sangue espalhado por todo o terreno, coisa mais que corriqueira do mundo nos jornais vampiros. 

O público-vampiro mais uma vez regozijou-se com tanto sangue.

Para a família, a exposição das vísceras, profanação dos anos de carinho, de mimos, de amor  da criança inocente, anjinho, de tentativas de mostrar o caminho reto, dos descaminhos, da tragédia, do vazio sem esperança, da imensa decepção com o mundo dos homens e da indignação com os vampiros de sangue e de almas.